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Imigração e Anarquismo: a verdadeira história da Colônia Cecília (Final)
Venerd� - 28/07/2006

Continuação - Parte IV - Final

Por Isabele Felici
Tradução: Edilene T. Toledo
Revisão: Sergio S. Silva

A soma a pagar ao governo, o campo de milho, o trabalho nas estradas do Estado, são alguns detalhes verídicos que aparecem no relato escrito por Rossi em 1893, reeditado em São Paulo em 1932, também em Quaderni della Libertà. Mas Afonso Schmidt confunde a cronologia, cria relações de causa e efeito; tudo é refundido para formar uma outra história e para dar livre curso ao seu lirismo. Notemos também que o "velho hino" que Schmidt faz os seus personagens cantarem é "Addio Lugano bella", composta por Pietro Gori, em 1894, após o fim da Cecília.

Afonso Schmidt interessou-se, na sua obra de juventude, pelo tema da vida comunitária: escreveu uma novela, Harmonia, que publicou em Santos, em 1922, em uma coletânea intitulada Brutalidade. Ele freqüentou também os meios anarquistas desde 1909 e, sobretudo, em 1919, quando colaborou com o jornal anarquista de São Paulo, A Plebe. Se a experiência de Rossi o seduz, é porque a aventura vivida por um corresponde ao sonho do outro.

Como, portanto, resistir à tentação de adaptar certos fatos, arranjar a verdade, inventar elos que faltam, calar alguns aspectos que não quadram com o resto? Newton Stadler de Sousa faz parte daqueles que reprovam, em Afonso Schmidt, o fato de procurar o efeito narrativo mais do que a veracidade, o que complica, diz ele, o trabalho do historiador e dos sociólogos, os quais se preocupam mais em buscar a "verdade total". Apesar dessa observação, Stadler de Sousa, ele próprio, é culpado de embelezamentos, de arranjos e de erros às vezes grosseiros ao longo de sua pesquisa que tem, ela, vocação científica. Ele também não percebe os erros de datas.

Se a "versão do imperador" teve uma tal sorte, se ela foi repetida tão freqüentemente após Schmidt, é porque, exceção feita à incoerência cronológica já observada, mas que pode escapar aos leitores apressados, ela é, para todos os efeitos, plausível e baseia-se sobre fatos verificados, como a viagem do imperador à Europa em 1888, sua visita ao teatro La Scala de Milão, onde ele efetivamente assistiu a uma ópera, mesmo que nunca tenha ali encontrado Rossi.

Os clichês que se unem habitualmente à figura de Pedro II, mecenas, liberal, aberto a todos, justificam seu suposto interesse por uma colônia anarquista. Isso permite, aliás, a alguns, cumprimentos hiperbólicos em relação ao imperador - "Foi assim que um monarca estendeu a mão à anarquia...", escreve Franco Cenni em Italianos no Brasil - e sinais de simpatia para com esse "imperador sem medo dos Anarquistas", mesmo da parte de Edgar Rodrigues.

Ainda que plausível, a versão de Schmidt não resiste a um exame aprofundado. Ela já foi refutada na obra Il Socialismo Utopistico. Giovanni Rossi e la Colonia Cecilia, de Rosellina Gosi, que se funda sobre a psicologia de Giovanni Rossi e sua intensa atividade na Itália(em 1888, ele havia apenas começado a experiência de Cittadella), quando deveria ter concebido, com o apoio do soberano, o projeto de dirigir-se ao Paraná. Às deduções dessa autora, que se baseiam igualmente no testemunho de Ebe Rossi, junta-se, desde a nossa visita ao Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, um argumento inatacável: se Rossi pensa em transferir-se para Porto Alegre, assim como nos revela o registro da Hospedaria dos Imigrantes e como nos indica também a sua carta a La Révolte, em março de 1890, ele não sabe ainda que sua colônia será implantada no Paraná, próximo a Palmeira; e, portanto, o imperador, já destronado em 1890, não tem nenhuma ligação com a Cecília.

Essa Cecília legendária conheceu uma fama muito grande: além do romance de Afonso Schmidt e das numerosas obras de história, a Cecília inspirou um filme de longa metragem de Jean-Louis Comolli, La Cecilia, 1976. Esse filme, ainda que romanceado, ilustra muito bem os momentos marcantes da colônia: o entusiasmo dos primeiros dias, a dificuldade do trabalho, os conflitos e os ciúmes entre os colonos.

A colônia é também o tema de uma peça de teatro brasileira, Colônia Cecília, escrita por Renata Pallottini por encomenda do governador do estado do Paraná. Enfim, um autor anônimo escreve uma canção, "La Colonia Cecilia", que foi gravada pelo Istituto De Martino, de Milão, em julho de 1962.

Antes de deixar a lenda, é preciso evocar uma outra colônia anarquista que é citada comumente no mesmo período da Cecília, uma colônia que teria sido fundada em Guararema (estado de São Paulo), por Arturo Campagnoli, em 1888. Essa colônia nunca existiu e foi citada somente nessa passagem tirada do livro São Paulo de meus Amores, de Afonso Schmidt:

"Ainda estávamos no Império, quando ele abandonou tudo na Europa e decidiu estabelecer-se em Guararema, numa velha fazenda. Repartiu a terra, chamou amigos, iniciou a plantação coletiva. Há muitos anos, diversas nacionalidades ali estiveram representadas: russos, espanhóis, franceses, italianos. E ele lutara, lutara. Nos primeiros anos da República, quiseram deportá-lo! Foi preso e levado para Santos, sob custódia. De lá conseguiu fugir lançando-se à água; durante meio século, em Guararema, foi um bom amigo dos caboclos. Conta-se que em certa noite de tempestade, atravessou o rio a nado, para levar remédios a um sitiante que morria à míngua. Lá, quando a gente fala no velho Campagnoli, há sempre um caboclo para dizer: - Aquilo sim, é que era homem bom."

A generosidade que ressalta nessa passagem é toda em honra de Campagnoli, que viveu efetivamente em Guararema, mas somente a partir dos primeiros anos do século XX. Se ele pôde deixar atrás de si essa reputação, em compensação, nunca fundou uma colônia, mas trabalhava na propriedade de seu irmão. Sua ficha nos arquivos da polícia italiana nos permite reconstituir o seu itinerário.

Arturo Campagnoli chega ao Brasil em 1891, logo após o fim do Império. Ele é preso em 1894 e depois expulso do Brasil em 1895. Dirige-se a Paris e depois a Londres, em 1900. Retorna ao Brasil em 1902. Em 1905, um agente da polícia italiana, Frosali, em missão em Londres, ouviu dizer que Campagnoli havia fundado uma colônia anarquista no Brasil. O encarregado dos assuntos italianos em Petrópolis desmente esse rumor. Além disso, as filhas de Campagnoli - que Jaime Cubero, do Centro de Cultura Social de São Paulo, encontrou em Guararema - nunca ouviram falar dessa suposta colônia.

A Cecília conquistou uma certa fama na imprensa anarquista internacional, graças ao relatório escrito em abril de 1893 e, sobretudo, pelos textos sobre o amor livre (Cecilia, Comunità Anarchica Sperimentale e Un Episodio d'Amore nella Colonia Cecilia), publicados muitas vezes: na Itália, em 1893; na França, em 1894; na Argentina, em 1894 e 1896; no Brasil, em 1896 e 1932; nos Estados Unidos, em 1903.

Esses dois textos foram ainda objeto de uma reedição em 1993, pela Biblioteca Franco Serantini, de Pisa. Na imprensa anarquista italiana no Brasil contemporâneo à Cecília, raramente se fez alusão à colônia, da qual não se sabia, aliás, muita coisa. A preocupação de Rossi não era, de nenhuma forma, ligada ao movimento social brasileiro, que estava apenas em estado embrionário no início dos anos noventa. Alguns contatos se estabeleceram, entretanto, em particular com um jornal italiano de São Paulo contemporâneo à Cecília, Gli Schiavi Bianchi.

É difícil saber se esses contatos eram freqüentes, porque são disponíveis somente dois exemplares desse jornal; as relações não deviam, entretanto, ser regularmente mantidas, uma vez que se encontra em um número de junho de 1892, uma mensagem da redação ao Dr. Rossi, pedindo que este envie notícias da colônia. No início de 1893, é a colônia que se dirige ao jornal através da pena de Amilcare Cappellaro e pede aos camaradas uma ajuda financeira.

Daí para frente, os anarquistas italianos no Brasil não manifestam interesse por esse episódio que eles conhecem muito mal e que não tem ligação com suas preocupações políticas. O tema das experiências comunitárias só aparece muito raramente nos jornais anarquistas em italiano publicados no Brasil e, quando escrevem sobre o assunto, Rossi e a Cecília não são mencionados26.

Em agosto de 1913, um dos jornais anarquistas de São Paulo, La Propaganda Libertaria, faz, entretanto, de Rossi e dos colonos da Cecília, os pioneiros do movimento social no Brasil, mas tudo o que o autor do artigo conhece deles é o que leu no texto escrito por Rossi em 1893.

O jornal não sabe o que aconteceu com Rossi, desde que uma carta dele apareceu em La Protesta Umana de junho de 1903. Alguns acham até que ele morreu. Em fevereiro de 1948, Gigi Damiani, um dos anarquistas italianos que mais marcou o movimento social em São Paulo, durante sua permanência no Brasil de 1897 a 1919, consagra um artigo do jornal anarquista italiano Umanità Nuova à colônia Cecília.

É a leitura de um trabalho universitário defendido na Universidade de Florença por Milena Perina, Esperimenti cooperativistici di un ignorato riformatore italiano del secolo XIX: Giovanni Rossi, que suscita a escritura desse artigo o qual comporta somente poucas lembranças pessoais.

Damiani conta que ele conheceu dois antigos membros da colônia, Egizio Cini e Ernesto Pacini, e relata uma anedota a propósito de Francesco Gattai. Este, quando fazia a guarda, ia até a oficina de ferreiro da comunidade para acender seu cachimbo e economizar os fósforos.

Mas, além dessas pequenas anedotas, Damiani não sabe nada. Sua memória até o engana, uma vez que ele escreve sobre alguns anarquistas convictos que deixaram a colônia sem abandonar sua fé e, "ao fim de alguns meses, eles publicam na capital do Paraná, Curitiba, o primeiro dos jornais anarquistas que apareceram nessas regiões distantes: Il Diritto".

Ora, Il Diritto nasce somente em 1899, como se pode constatar graças à coleção conservada no Internationaal Instituut voor Sociale Geschiedenis, de Amsterdã. Ele é fundado por Egizio Cini, um dos sete jovens empenhados que salvaram a Cecília de sua primeira crise, em junho de 1891. O próprio Gigi Damiani colaborou com esse jornal em março de 1900. Alguns antigos colonos da Cecília estão também em contato com Il Diritto, uma vez que aparecem entre os assinantes do jornal.

Sob os erros tipográficos e pelas iniciais ou primeiros nomes, pode-se reconhecer alguns nomes que aparecem também na nossa lista de pessoas que teriam participado da colônia Cecília : Costalli, Minardi, Benedetti, Garzino, Agottani, Colli, Paccini, Nannoni, Mansani e também Giovanni Rossi. Nos anos seguintes, os jornais anarquistas publicados no Brasil, essencialmente em São Paulo, recebem regularmente subscrições de antigos membros da Cecília27. Observa-se também em Germinal de 14 de fevereiro de 1902, que Pietro Colli aparece entre os fundadores da Liga Internacional dos Trabalhadores de Palmeira.

Nem todos os membros da Cecília permanecem no Brasil28. Alguns voltam muito rápido para a Itália. É o caso dos pioneiros Achille Dondelli, Lorenzo Arrighini e Giacomo Zanetti. Lorenzo Arrighini está na Itália pelo menos desde 30 de abril de 1892, data na qual ele é preso. Com o passar dos anos, sua conduta moral parece cada vez mais satisfatória aos funcionários da polícia.  Giacomo Zanetti também é preso em 1892, em Brescia. Assinala-se a presença de Dondelli na Itália em setembro de 1893. Após 1894, ele não é mais considerado perigoso. Nenhum deles continua a lutar nas fileiras do anarquismo.

Giuseppe Maderna permanece no Brasil mas é muito rapidamente perdido para a causa. A ficha escrita pela polícia italiana nos informa que Giuseppe Maderna chega ao Brasil em 1891, mas não faz menção à sua passagem pela Cecília. Mais tarde, Maderna torna-se proprietário de uma serraria em Curitiba, em sociedade com Decio Boni, ele também um antigo membro da Cecília. Os dois deixam de se interessar pela propaganda. Em 1937, a embaixada da Itália no Rio de Janeiro informa que Maderna tem naquele momento uma atividade fascista e que "é um bom elemento do ponto de vista nacional."

Bem diferente é o caso de Francesco Gattai. Após a sua permanência em Curitiba, dirige-se a São Paulo onde trabalha a princípio como eletricista para uma companhia inglesa de estradas de ferro; depois trabalha na rua do Gasômetro, n. 63, em uma oficina de consertos em geral. Seu nome aparece em pequenos anúncios publicitários, como em Il Risveglio de 11 maio de 1898, e aparece freqüentemente nas listas de assinantes da imprensa anarquista29. Francesco Gattai é também o tesoureiro de uma comissão encarregada de organizar festas campestres30 e chega a receber na sua casa, Rua Amélia, n. 6, os camaradas que desejam comprar fotografias de Pietro Gori31. Mas Gattai afirma não fazer parte dos militantes mais ativos. Parece que é de boa fé que ele declara à polícia italiana em 1902:

"Desde aquela época (1891) até agora, eu não me ocupei mais de política; pensei nas minhas coisas; e não entendo como agora se queira designar-me como um indivíduo perigoso. (...) eu servi fielmente ao Exército Italiano no 48º Regimento de Infantaria e exibo o documento de cabo, sem punições. Servi depois sete anos no arsenal do primeiro Departamento marítimo de La Spezia (1884-1891), época em que, como eu disse, emigrei para a América."

Gattai tem, entretanto, o apoio incondicional dos camaradas anarquistas de São Paulo, que publicam, em Il Risveglio de 13 de novembro de 1898, palavras muito tocantes e cheias de delicadeza por ocasião da morte de sua mulher. E, em julho de 1918, quando morre Gattai, o jornal do Rio de Janeiro, Crônica Subversiva, citado por Edgar Rodrigues em Os Anarquistas, presta homenagem ao anarquista fiel que se foi.

Por sua vez, um dos filhos de Agottani, Andrea Giuseppe - José para a polícia de São Paulo - causa muitos problemas à polícia italiana, por causa dos seus numerosos deslocamentos entre a Europa e o Brasil e dos contatos que ele estabelece com os meios subversivos, não somente no Brasil e na Argentina, mas também na Itália e na França. Ele é expulso do Brasil como anarquista em 1919, mas acaba por juntar-se a seu irmão Aldino em 1933, na sua fazenda de Palmeira.

Aldino Agottani, vigiado por causa de sua relação de parentesco com Andrea Giuseppe, não se dá conta das suspeitas dos serviços diplomáticos italianos, que querem atribuir a ele alguma atividade política. Opostamente, Edgar Rodrigues afirma em seu livro sobre os anarquistas, que Giuseppe se manifesta ainda em 1949, quando escreve, com seu irmão Zefferino e com Daniele Dusi, ao jornal anarquista Ação Direta para levar o seu apoio aos camaradas anarquistas do Rio de Janeiro; e, em 1950, quando envia dinheiro a esse mesmo jornal.

Se a Cecília atraiu para o Brasil anarquistas, dos quais alguns tiveram no início uma atividade política, essa contribuição indireta da colônia de Rossi ao movimento operário é, entretanto, freqüentemente exagerada.

Assim, atribui-se a numerosos jornais uma ligação com antigos colonos da Cecília. Segundo Newton Stadler de Sousa, Pietro Riva, um antigo colono da Cecília, teria ajudado seu filho Giuseppe a editar um jornal anarquista em italiano, Il Lavoratore, em outubro de 1893. Maria Nazareth Ferreira, em seu livro A Imprensa Operária no Brasil, 1880-1920, afirma que Despertar, nascido em Curitiba em 1904, emana de um grupo da colônia Cecília.

Na verdade, esse jornal aparece sob a responsabilidade de Gigi Damiani e de um certo José Buzzetti. É entretanto verdade que antigos colonos da Cecília aparecem entre os seus assinantes. Edgar Rodrigues, em sua obra Os Anarquistas, chega até a atribuir o nascimento, em 1894, do jornal anarquista A Luta de Porto Alegre, à influência de Giovanni Rossi e Gigi Damiani.

Segundo Rodrigues, o primeiro estaria em Taquari (Rio Grande do Sul); o que, na verdade, só ocorrerá no fim de 1895. O segundo estaria naquele ano de 1894 em Caxias (também no Rio Grande), mas, na verdade, só chegaria ao Brasil em 1897 e nunca teria pertencido à colônia Cecília. Os exageros tocam também Rossi, que é considerado um dos anarquistas mais ativos do movimento operário brasileiro do início do século, quando ele nunca participou dele.

Rossi e sua colônia fazem já parte do imaginário do movimento social no Brasil, como o demonstram a peça já citada de Renata Pallottini, e o romance de Renato Modernell, Sonata da Última Cidade, onde ele diz que os anarquistas de São Paulo, que todavia nunca  encontraram Rossi, o evocam com orgulho.

Nos trabalhos consagrados à história da emigração, tais como o de Ercole Sori, Robert Paris e Jean Charles Vegliante, a Cecília é considerada como um episódio da imigração italiana no Brasil. E, de fato, é muito provável que Rossi nunca tivesse pensado em sair das fronteiras da península sem a forte corrente emigratória que conduz grande número de italianos em direção ao Brasil, na última década do século XIX.

O esquema psicológico que leva Rossi a seguir os traços dos emigrantes é muito próximo ao dos próprios emigrantes. Ele precisa de um lugar para realizar o que ele não pode fazer na Itália e considera o Brasil uma terra de acolhida momentânea. Seu espírito está sempre dirigido para a Europa; é lá que ele quer convencer e é lá que ele quer ajudar financeiramente a causa anarquista.

O Brasil em si não interessa a ele. Ele escolhe dirigir-se às regiões do Sul, as mais semelhantes às que ele já conhece, pelo clima e pela agricultura. É provável que Rossi sofra mais ou menos diretamente a influência da "propaganda infatigável"32 dos agentes do governo brasileiro e das companhias de navegação, pagas para fazer campanha em favor da emigração para o Brasil.

Ele pode ter lido uma das numerosas publicações contando as maravilhas do Brasil e ter sido simplesmente influenciado pela atmosfera do período. Lembremos que é Dondelli que sugere a Rossi de partir para a América do Sul. As regiões do norte da Itália, onde Rossi se acha e onde ele encontra aqueles que se tornariam os colonos da Cecília, são os alvos preferidos dos recrutadores da época. Desde que ele toma a decisão de se expatriar, Rossi pensa em utilizar a corrente migratória em direção à América do Sul como um novo meio de melhorar sua colônia.

Ela é disposta, segundo Rossi, a acolher "todos os socialistas que a miséria empurra a cada ano para o êxodo plebeu." Lamentando que os italianos sejam obrigados ao êxodo, compadecendo-se da miséria dos emigrantes, esses "esfomeados da pátria", como ele os qualifica em um número de maio de 1886 de seu jornal Lo Sperimentale, ele aproveita essa situação e se transforma em um recrutador tão interessado e eficaz, como se ele se tivesse posto ao serviço da República brasileira ou de uma companhia de navegação.

Se isso lhe pode ser útil e trazer algum subsídio à colônia, Rossi não perde a ocasião de assimilar sua experiência à das massas de emigrantes partidas para o Brasil. Em 1892, dirigindo-se aos camaradas trabalhadores do Vêneto, no jornal Verona del Popolo, ele pede ajuda não para os socialistas que partiram para uma experiência de vida comunitária, mas para simples emigrantes. Aliás, se Rossi se dirige a esse jornal do Vêneto, com o qual ele não tem a priori nenhuma ligação, é porque ele conhece a forte presença de emigrados originários do Vêneto nos estados do sul do Brasil:

"Os vossos companheiros que, obrigados a emigrar por inelutável necessidade, irão na próxima expedição, ao Paraná, unir as suas energias e as suas forças de vontade aos irmãos colonos, prestar-se-ão a combater a calúnia e a mistificação dos vis e dos poderosos, fazendo prosperar sempre mais a simpática colônia. Vós sabeis que os emigrantes são vossos irmãos, são desventurados como vós; e, por isso, necessitados da vossa ajuda, da vossa assistência."

O caminho de Rossi e dos pioneiros da Cecília é efetivamente idêntico, como vimos, ao de todo emigrante, tanto no que se refere à viagem e ao alojamento, como às questões administrativas. Cappellaro precisa bem em um artigo de La Révolte: "Quanto à viagem, vossa qualidade de emigrante vos fará sem dúvida ter a passagem gratuita", e Rossi não deixa, no seu relato de 1891, de propor alguns melhoramentos à sorte desses emigrantes, no que se refere à alimentação no navio ou em alguns centros de acolhida.

A instalação no lugar parece também com a de outros colonos, que tiveram que suportar as mesmas dificuldades no abastecimento e nos transportes. Mas os colonos da Cecília não são todos apenas emigrantes. As pessoas que Rossi e Cappellaro recrutaram, em 1891 e 1892, talvez nunca teriam sonhado em emigrar sem os argumentos de Rossi, e eles não estavam forçosamente, como muitos dos emigrados de então, em uma situação miserável, antes de deixar a Itália.

Essa hipótese poderia ser válida para Francesco Gattai, que, eletricista de profissão, trabalhou em Florença, Milão e La Spezia antes de se decidir "a procurar melhor sorte na América". É, ao menos, o que ele afirma durante um interrogatório da polícia de Gênova, em 1902. É impossível conhecer as motivações dos outros colonos.

Que eles fossem camponeses ou operários, é difícil determinar o que seduziu esses homens e mulheres no projeto de Rossi: a esperança de "fazer a América" e de se enriquecer nas terras estrangeiras para conhecer uma vida melhor, a perspectiva de pôr em prática suas convicções anarquistas em uma experiência comunitária ou o desejo de ajudar financeiramente a propaganda revolucionária na Itália?

Notas

26 Ver Germinal, dezembro de 1902; Il Libertario, outubro de 1906; La Battaglia, julho de 1907.

27 Paolo Costalli em Il Risveglio de 27 de novembro de 1898; Pietro Colli, Aldino Agottani, Zeffiro Agottani, Peppino Agottani, Amedeo Artusi em La Battaglia de 25 de setembro de 1905; Colli e Agottani em O Despertar. Folha quinzenal de propaganda libertária, jornal de Curitiba, 31 de dezembro de 1905; Zefferino e A. Agottani, Daniele Dusi, Virginio Artusi, Libero, Vittorio e Italo Mezzadri em Guerra Sociale de 11 de setembro de 1915; G. e F. Agottani, V. Artusi em Germinal de 21 junho de 1919.

28 As informações que se seguem são retiradas, salvo indicação contrária, das fichas da polícia italiana, organizadas por nome de pessoa no Casellario Politico Centrale, conservado no Archivio Centrale dello Stato de Roma.

29 Citamos Il Risveglio de 16 de outubro e 20 de novembro de 1898, Palestra Social de 12 de janeiro e 24 de fevereiro de 1901, Germinal de 9 de agosto de 1902, La Barricata de 17 de outubro de 1912, Guerra Sociale de 3 de junho de 1916.

30 Palestra Social, 24 de fevereiro de 1900, 31 de março e 1º de maio de 1901.

31 La Battaglia, 2 de março de 1912 e La Barricata, 20 de abril de 1913.

32 Esse é o termo utilizado em uma carta de 5 de dezembro de 1892 da Legação francesa no Rio de Janeiro ao Ministério das Relações Exteriores. Archives du Ministère des Affaires Étrangères, Paris, Nouvelle Série, Brésil, vol.1, p. 18-21. Ver também um recorte da imprensa britânica enviada a Paris pela Direction des Affaires Commerciales de L'Ambassade de France na Inglaterra, no dia 15 de outubro de 1892. Nesse artigo, advertem-se os trabalhadores britânicos dos perigos que eles correm dirigindo-se ao Brasil e aconselha-se a eles de não cederem às ofertas tentadoras do governo brasileiro e das companhias privadas. "A warning to workers". Daily Telegraph (outubro, 1892). Archives du Ministère des Affaires Étrangères, Paris, Nouvelle Série, Brésil, vol.1, p.13.






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