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Os gladiadores através do "Gladiador"
Venerdì - 21/04/2006

Por Marcela Regina Formico [1]

“Os filmes deveriam ser um meio como qualquer outro, talvez mais valioso que qualquer outro, de escrever história” Roberto Rosselini[2]

Segundo Peter Burke[3], o mesmo Rosselini num certo momento de sua carreira decidiu fazer filmes históricos como uma forma de educação popular, com o propósito de ajudar as pessoas a entenderem o presente por meio do passado.

No entanto, deve-se sempre ter em mente que um filme, ficcional ou documental, é uma manipulação do “real”. Esta que é feita através do olhar do diretor durante a montagem das cenas, enquadramentos, usos de iluminação, etc. Assim, como a intenção de Rosselini pode sair do campo ideológico e se tornar uma realidade?

Ao estudar as fontes historiográficas, sejam elas primárias ou secundárias, uma questão deve estar bem clara: como estas fontes contribuem para a formação de uma memória e como esta é influenciada pela época na qual está inserida, sendo que cada momento da história cria uma leitura especifica desta, pois, cada momento possui o seu próprio contexto e ideologia vigente.

É comum na construção das identidades nacionais buscar a utilização da Antiguidade como fator legitimador de um poder contemporâneo, colocando romanos e gregos num pedestal, representando a proveniência de uma superioridade de uma determinada nação. Como no caso dos ingleses, que ao longo do século XX discursavam que eles herdaram dos romanos, via descendência bretã, a missão de civilizar os povos bárbaros do mundo, legitimando seu ato imperialista com o passado e sua posição de superioridade utilizando-se da idéia de oposição romano/bárbaro[4]. O mesmo ocorre com os franceses, que usaram  a arqueologia e a educação como forma de criar sua identidade como uma nação superior que possui o direito de conquistar outros povos. Desta forma alegando que suas origens são o resultado do contato de gauleses e romanos; pode-se então chegar a conclusão de que assim como os gauleses tiveram de suportar o ataque dos romanos para poderem se tornar a civilização francesa como é hoje conhecida, os povos submetidos ao imperialismo francês teriam que sofrer uma forte e inesperada influência estrangeira em seu território para poder se tornar uma “nova e melhor” civilização. Dentro deste raciocínio, o contato entre esses dois povos seria o legado deixado para a França de espalhar o seu conceito de “civilização” para os outros povos, tornando essa idéia um dos principais argumentos em favor de sua colonização imperialista em vários pontos do mundo [5].

A construção de uma memória pode também valorizar a raiz bárbara ao invés da romana, se isso convém para um determinado discurso.O caso do 3º Reich que procurando legitimar as anexações feitas durante a Segunda Guerra Mundial nas regiões da Alsácia  e Lorena, pertencentes à França, recorreu a arqueologia  a fim de demonstrar e enraizar  a idéia de um pertencimento ancestral dessas regiões à cultura germânica. Desse modo, criando um argumento afirmativo, de acordo com seus propósitos, de que as populações dessas regiões seriam descendentes diretas dos germânicos que se estabeleceram há muito tempo nestas localidades, desde ao menos do Neolítico.[6]

Da mesma maneira, como a arqueologia é utilizada para a produção de um discurso, os filmes podem cumprir a mesma função, como veremos a seguir, na análise do filme, Gladiador, de Ridley Scott (2000):

O que  deve chamar a atenção ao assistir um filme, principalmente de caráter histórico, é a força que tem a imagem sobre o espectador que tem a impressão de estar acompanhando passivamente o desenrolar de fatos tidos como reais na história, proporcionando-lhe uma ilusão de objetividade do documento visual que na verdade é uma visão  restrita de um determinado período histórico, a qual foi condicionada pelas intenções do diretor , diálogos, edições, e outros elementos que foram introduzidos ao filme.[7]  

A manipulação referida acima pode ser visualizada na presença de conceitos da historiografia do século XIX como “Romanização”, “plebe ociosa”, “política do pão e circo” e “valorização do romano em detrimento do bárbaro”, os quais  integram o filme Gladiador (2000) que, por sua vez, sofre a influência desta produção historiográfica e não simplesmente como muitas pessoas que não fazem parte de um ambiente acadêmico podem vir a pensar, que estão presenciando uma fiel representação do mundo Clássico, ao assistir este filme.

Romanização

No inicio do filme já aparece uma das características mais marcantes de Roma, principalmente para a legitimação do ambiente político, o seu caráter conquistador.

Dois exércitos se encontram posicionados para lutar nas terras da Germânia; após o conflito Roma surge como vencedora.

No acampamento romano se pode acompanhar a conversa entre o general Máximo e o Imperador Marco Aurélio e uma frase é proclamada pelo general que chama a atenção:

“- Porque este sangue é derramado (guerra de expansão)...pela glória de Roma!”

Ainda na cena do conflito das cenas iniciais pode-se observar o próximo elemento:

Oposição romano/ bárbaro:

Neste conflito a valorização do homem romano fica evidente, pois há uma clara distinção entre os dois exércitos. Os romanos são organizados em posições pré-determinadas, onde esperam pacientemente a batalha, estão armados com artefatos bélicos elaborados como catapultas, possuem o controle sobre animais irracionais como cavalos e cães. Em contraposição, os bárbaros correspondem a um caos total, atacam por impulso, apresentam uma aparência grotesca com suas barbas mal feitas e suas roupas de peles de animais, as quais deixam implícito a noção de seres não civilizados.

Em outro ponto do filme fica evidente tal oposição, figurada na personificação do gladiador; quando Máximo, o general, deixa de sê-lo para se tornar o gladiador. Esta modificação de identidade trás consigo uma nova representação de origem, Máximo não é designado como um romano, mas, sim um espanhol, um individuo pertencente a um grupo bárbaro que foi romanizado.

Pão e circo / plebe ociosa:

Nas obras de Friedländer e Mommsen, estes dois conceitos são abordados respectivamente,sendo que ambos analisam a sociedade romana através de uma ótica burguesa do século XIX. Esta sociedade é caracterizada por Mommsen  como desinteressada pelo trabalho e amante dos espetáculos, enquanto Friedländer complementa esta caracterização na sua interpretação das Sátiras de Juvenal,como se fossem uma poderosa imagem em que o Estado, devido à ociosidade da população, deveria se encarregar  de garantir seu sustento, distribuindo alimentos e organizando espetáculos , para evitar tumultos causados por uma grande quantidade de pessoas sem atividades o dia todo.[8] Deste modo, se especifica que no século XIX os espetáculos eram tidos como um poderoso instrumento de controle político.

No filme Gladiador tal representação ganha vida ao mostrar enormes carroças enfeitadas com folhagens, com homens que jogavam redondos pães à grande massa de espectadores, em um breve momento.

Uma segunda representação desta manipulação política romana, que pode passar desapercebida pelo espectador desatento, é durante a conversa de dois senadores, Graco e Gaio, depois que o segundo fica sabendo dos 150 dias de jogos que serão promovidos por Commodus em homenagem à morte de seu pai, o imperador Marco Aurélio:

“Gaio: - 150 dias de jogos!

(...)

Graco: - Medo e admiração ... É uma combinação perigosa

Gaio: - Você realmente acha que o povo irá se deixar por isso?

Graco: - Acho que ele (Commodus) conhece Roma. Roma é o povo. Ele lhes dará um espetáculo mágico e os distrairá. Vai lhes tirar a liberdade e, ainda assim, vão aplaudir. O coração de Roma não é o mármore do Senado, mas a areia do Coliseu. Ele lhes trará a morte. E eles o adorarão”[9]

Da mesma forma que os espetáculos podem ser uma ferramenta política, podem ser vistos, também, por sua importância pedagógica em manter o valor da guerra na sociedade, sendo os gladiadores personificações de bravura, virtude guerreira e honra perante a morte. Como pesquisas recentes e especificas de estudiosos como Wistrand, Barton e Cagniart sobre a relação do filosofo Sêneca  com os combates de gladiadores[10], as quais salientam este aspecto, mas que são esquecidos no filme.

Além  de o filme sofrer a influência de conceitos elaborados no século XIX,  também é marcado pela presença do pensamento vigente atualmente no mundo, o ideal democrata capitalista Ocidental. Desta forma, como o capitalismo valoriza ao máximo o trabalho, o filme não deixa de mostrar de maneira depreciativa, os combates, sendo  demonstrado pelo dialogo anteriormente reproduzido. Também pelo fato que durante todo o filme ocorre uma batalha política entre Império e República, tendo como vencedor o segundo, sendo que no final deste se consagra à idéia, em um subtexto, de que só com um governo democrata pode ser obtido a liberdade e a justiça dentro da sociedade.

Não se esquecendo que dentro desse discurso prevalece na narrativa um maniqueísmo, no qual Máximo representa o bem, pois mesmo que seus atos sejam movidos por um desejo de vingança, ele ainda assim é a personificação do homem de coragem, honrado e que sempre preza a confiança, ao passo que Commodus é o mal em pessoa, um homem covarde e ambicioso.

Máximo além de ser a alegoria do bem, também representa o gladiador que por vir de uma elite detentora da sabedoria consegue enfrentar o Imperador com a força de seu nome, pois se este gladiador tivesse vindo da “plebe ociosa”, talvez nunca tal enfrentamento ocorreria.

A maneira como a figura do gladiador é trabalhada no filme é feita da forma tradicional, como indivíduos que convivem com a relação da fama/infâmia, os quais estão à margem da sociedade que se relacionam com prostitutas e que, ao mesmo tempo, são heróis dentro da arena, enfrentando a morte diariamente, em cada batalha que lhes é imposta. No entanto, o fato de que um gladiador pode chegar a uma idade avançada, algo que foge desse padrão, também se faz presente no filme dentro do personagem Próximo, mas, mesmo assim, a representação tradicional prevalece, já que ainda os gladiadores são figuras que permanecem enjauladas e os que possuem  uma relação afetiva são apenas aqueles que a tinham anteriormente ao fato de se tornarem gladiadores.

Do mesmo  modo em que o filme pode criar a ilusão de verdades, as revistas podem fazer o mesmo com o público leigo. Como Renata S. Garraffoni critica em sua tese, o artigo intitulado “A verdade sobre o Gladiador” , publicado na Revista Super Interessante de abril de 2001[11], no qual separa a “verdade” do que é “ficção” na obra de Ridley Scott, fazendo da seguinte forma:

“(...)Ao lado de aspectos classificados de “curiosidades” como o significado da tatuagem no braço do protagonista ou as vestimentas e armas usadas pelos gladiadores, o autor destaca uma a uma aquelas que seriam as “ficções” do filme. Entre elas esta um erro de produção em que um personagem chama o Amphiteatrum Flavium de Coliseu (nome que só receberia séculos depois) e o fato de Máximo, assim como outros personagens não terem existido. Já no campo das “verdades”, encontra-se os fatos e os acontecimentos como, por exemplo, quando viveu Cômodo, se ele lutava ou não na arena e os prováveis motivos para isto, quem era o imperador Marco Aurélio, se foi assassinado ou não pelo filho e a sua relação com o estoicismo (...).”[12]

Acrescentando a critica de Renata S. Garraffoni, o autor do artigo poderia ter trabalhado com uma analise critica que correspondesse em apontar os aspectos mais gerais da antigüidade romana que poderiam ser achados no filme do que dizer que o Coliseu não possuía esse nome, pois este é um artifício o qual é utilizado para que o espectador entenda o que o personagem está dizendo sem criar uma sensação de estranhamento, ou mesmo, quando classifica os tipos de gladiadores e complementa que um “dimachaeri”, o tigre gaulês, não luta com um “secutor”, classe que Máximo pertence, pois tal escolha foi feita apenas com uma intenção, a de tornar a cena mais emocionante.

Assim voltando à frase inicial deste texto em que Rosselini explicita o filme como o melhor meio de escrever história e sua intenção de usa-lo como material pedagógico, pode-se chegar à conclusão de que antes de ver os filmes desta forma é necessário lembrar que este meio é um dos mais fáceis de criar uma representação, pois dentro dele se encontra um triplo filtro, o do diretor,a o das fontes as quais ele utilizou e o do editor. Lembrando nas palavras de Marcos Napolitano, “cinema é manipulação”, o que a torna uma das mais potentes máquinas de representações que existem.

[1]Este artigo é um ensaio de um projeto Iniciação Científica que irá abranger alguns filmes épicos, portanto  o texto irá se prender a uma analise exclusiva do filme Gladiador de Ridley Scott. Universal (2000).

[2] Cineasta italiano que possuem dentre as suas varias obras filmes que seguem a vertente neo-realista como: “Roma cidade aberta”.

[3] BURKE, Peter. “De testemunha a historiador”. Testemunha ocular. Bauru, São Paulo.EDUSC. 2004. p.204

[4] GARRAFFONI, Renata S. “Arena antiga e olhares modernos: gladiadores romanos sob a lente da história”  Técnicas e destrezas nas arenas romanas: uma leitura da gladiatura no apogeu do Império. Tese de doutorado apresentada ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. 2004.p. 99

[5] SILVA, Glaydson J. da “A antiguidade romana e a desconstrução das identidades nacionais”. In: Identidades, discursos e poder: estudos de arqueologia contemporânea.(Funari, P. P. A.; Orser Jr, C. E . e Schiavetto S. N. de – orgs.) São Paulo. Annablume; Fapesp. 2005. pp.93-95

[6] OLIVIER, Laurent. “A arqueologia no 3º Reich e a França: notas para servir ao estudo da “banalidade do mal” em arqueologia”. In: Identidades, discursos e poder: estudos de arqueologia contemporânea.(Funari, P. P. A.; Orser Jr, C. E . e Schiavetto S. N. de – orgs.) São Paulo. Annablume; Fapesp. 2005. p.177

[7] NAPOLITANO, Marcos. “A história após o papel”. In: Fontes históricas. (Pinsky, Carla B. – org.). Editora Contexto. pp.236-243

[8] GARRAFFONI, Renata S. “Arena antiga e olhares modernos: gladiadores romanos sob a lente da história”Op, Cit.  pp75-78

[9] Falas proferidas após mais ou menos 1 hora e 10 minutos de filme.

[10] GARRAFFONI, Renata S. “A singularidade de um Império: Glória e o sangue nos anfiteatros romanos”  Op. Cit. pp48-49

[11] GEHRINGER, Max., “A verdade sobre o Gladiador”. In: Super Interessante. Editora Abril, ano 15, nº4, abril 2001, pp.84-89

[12] GARRAFFONI, Renata S. “A singularidade de um Império: Glória e o sangue nos anfiteatros romanos”  Op. Cit. pp73-74 .






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