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Virgem de araque

Aumento de procura faz crescer casos de fraudes e adulterações do azeite de oliva

Por Tânia Nogueira

Desde a descoberta dos poderes da dieta mediterrânea, o azeite de oliva entrou na moda. Suas propriedades antioxidantes seriam boas para evitar o envelhecimento, combater o mau colesterol, doenças cardíacas e até câncer. Mas os especialistas afirmam que muitos azeites que se encontram por aí, embora se apresentem como puros, não são extravirgens nem foram produzidos de forma a preservar os nutrientes responsáveis pelos benefícios à saúde. Alguns nem sequer são de oliva.

Já há uma campanha mundial contra essa adulteração. Luigi Veronelli, o maior crítico italiano de vinhos, empreende uma cruzada pela normatização do azeite de oliva. Segundo ele, os supermercados vendem extravirgens pela metade do preço de custo do produtor. ''Isso é uma fraude consentida por uma política ignorante e corrompida'', dispara Veronelli em seu site na internet. ''Certas marcas conhecidas nos supermercados não são extravirgens, como anunciam'', reforça o produtor e engenheiro agrônomo português José Chicau, consultor de cooperativas na região do Alentejo.

Existem três classificações de azeite. Extravirgem é o produto da primeira prensagem das olivas e não passa por nenhum tipo de refino químico. Já o azeite rotulado como virgem é obtido na segunda prensagem. O terceiro, chamado apenas azeite de oliva, é obtido pela mistura de azeites virgens com óleos extraídos e refinados quimicamente depois da segunda prensagem.

O azeite refinado não faz mal à saúde. ''A diferença é que perde em sabor e tem menos nutrientes, inclusive alguns dos que são benéficos à saúde'', explica a engenheira de alimentos Ana Maria Rauen, do Instituto de Tecnologia de Alimentos. ''Claro que, se azeite comum for vendido como extravirgem, o consumidor está pagando mais por um produto que vale menos'', diz. Detectar esse tipo de fraude exige uma análise sofisticada, segundo Lireny Aparecida Guaraldo Gonçalves, professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. ''Em meu laboratório, já peguei garrafas com rótulo de extravirgem e que eram de azeite refinado'', diz. ''Alguns tinham até óleo de soja misturado.''

O número de pessoas que trocaram outras gorduras pelo azeite cresceu muito nas últimas décadas. A produção de azeitonas, não. As oliveiras da Itália produzem 400.000 toneladas de azeite por ano. Mas o mercado mundial consome 750.000 toneladas de produto rotulado como italiano. Boa parte desse volume é comprada em países como Turquia e Marrocos e apenas engarrafada na Itália - onde a lei só obriga a citar o lugar de envase.

No fim da década de 90 um teste feito pelo FDA, órgão que regula alimentos e remédios nos Estados Unidos, revelou que 96% das amostras haviam sido diluídas em outros óleos, apesar de trazerem no rótulo a indicação ''100% azeite de oliva''. ''Há evidências de que marcas italianas diluem seu azeite extravirgem em óleo de avelãs da Turquia'', diz o pesquisador americano Raymond Francis. Segundo ele, uma adição de até 20% de óleo de avelãs passaria despercebida ao consumidor. Uma análise coordenada pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) em dezembro de 2003 avaliou 13 marcas disponíveis nos supermercados. Delas, cinco continham outros tipos de óleo. Em geral, eram azeites suspeitosamente baratos. ''Infelizmente, o preço regula a qualidade'', diz a professora Lireny. ''Azeite de oliva muito barato é fraude.''