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Referendo sobre a Justiça: O dever de votar Não

Por Fabio Porta

Na Itália, está em curso uma tentativa de desmonte gradual do Estado de Direito, tal como foi concebido pelos nossos pais fundadores, que, logo após o fascismo, conseguiram redigir uma bela Constituição capaz de conciliar os valores do catolicismo democrático com os do liberalismo e do socialismo.

A ofensiva do governo baseia-se em três grandes reformas que enfraquecem diretamente alguns princípios fundamentais da nossa convivência democrática: o chamado premierato, com uma substancial deslegitimação do Presidente da República e uma forte concentração de poderes no Primeiro-Ministro; a autonomia diferenciada, que mina as garantias sociais e os níveis mínimos comuns de serviços entre cidadãos de regiões diferentes; e, por fim, a reforma da justiça que, por trás do slogan da separação das carreiras entre acusação e defesa e da melhoria do sistema, é na realidade um ataque à autonomia dos magistrados por parte do poder político.

Os italianos no exterior sabem muito bem o que significa assistir inertes ao desmonte dos seus direitos; sim, porque também a nova lei de cidadania desejada pelo governo, que substancialmente cancela o direito de transmissão pelo ius sanguinis — que até hoje regia nosso ordenamento e contribuía para fortalecer nosso vínculo com as comunidades italianas no mundo —, foi aprovada com o uso injustificado de decreto de urgência, impedindo assim que o Parlamento e a sociedade civil pudessem debater e discutir um tema tão importante.

Mas voltemos à reforma da justiça e ao referendo com o qual todos os italianos, na Itália e no exterior, serão chamados a expressar seu consentimento ou sua oposição à lei aprovada pelo Parlamento por maioria simples e, por isso, submetida aos eleitores; um referendo, vale lembrar, para o qual não será necessário o “quorum” de 50% de participação para sua validade, pois não se trata de uma solicitação de ab-rogação de uma lei, mas da necessidade de confirmar ou não uma reforma constitucional.

Não sou jurista e não pretendo entrar nos detalhes do atual arranjo da justiça nem no debate entre especialistas e constitucionalistas sobre o objeto da reforma desejada pelo governo. Tenho, porém, três coisas claras e acho justo compartilhá-las com quem tiver a paciência de ler estas poucas linhas que seguem:

1) Essa lei não trata da “separação das carreiras” entre promotores públicos e juízes: a reforma Cartabia de 2021 já tornou na prática uma raríssima exceção a passagem de uma carreira para outra (opção exercida por apenas 30 magistrados entre 30 mil);

2) Essa lei não melhora a eficiência da justiça (por admissão do próprio governo), mas enfraquece a autonomia dos magistrados e os submete a um controle maior do poder político. O verdadeiro ataque é ao Conselho Superior da Magistratura, que será eleito por um terço pelo Parlamento e por dois terços por membros escolhidos por sorteio (caso único no mundo), os quais acabarão sujeitos à influência dos indicados pela maioria governista;

3) A vitória no referendo serve, portanto, apenas para legitimar a ação progressiva e decidida do governo Meloni contra o equilíbrio dos poderes e o Estado de Direito, utilizando de forma preconceituosa o tema da eficiência da justiça (que precisaria de mais recursos e de prazos certos para os processos, e não de um maior controle do poder judiciário pelo executivo).

Um respeitado político socialista da chamada “Primeira República”, Rino Formica, que no passado travou importantes batalhas políticas pela “justiça justa” e pela reforma da mesma, captou bem o dado político que está na base deste referendo, e cito-o com prazer para concluir este meu comentário: “Aqui não está em jogo a carreira dos magistrados, nem se eles serão ou não autônomos em um Estado livre e democrático. Na decadência democrática, unidas ou divididas, as carreiras dos magistrados estarão às ordens de um poder autoritário. Portanto, hoje votar contra qualquer reforma proposta pelas forças que têm a intenção de demolir a Carta é um dever”.

Fabio Porta é deputado italiano do Partido Democrático, eleito na América do Sul; é Vice-presidente da Comissão Permanente sobre os Italianos no Mundo da Câmara dos Deputados da Itália.

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Referendum sulla Giustizia: Il dovere di votare No 

Di Fabio Porta 

In Italia è in atto un tentativo di smantellamento graduale dello Stato di diritto così come era stato voluto dai nostri padri costituenti che all’indomani del fascismo riuscirono a redigere una bellissima Costituzione che seppe coniugare i valori del cattolicesimo democratico con quelli del liberalismo e del socialismo. 

L’offensiva del governo si basa su tre grandi riforme che indeboliscono in maniera diretta alcuni princìpi fondamentali della nostra convivenza democratica: il cosiddetto premierato, con una sostanziale delegittimazione del Presidente della Repubblica ed una forte concentrazione di poteri sul Primo Ministro; l’autonomia differenziata, che mina alla base garanzie sociali e livelli minimi comuni di servizi tra cittadini di regioni diverse e – infine – la riforma della giustizia che dietro allo slogan della separazione delle carriere tra accusa e difesa e il miglioramento del sistema è in realtà un attacco all’autonomia dei magistrati da parte del potere politico. 

Gli italiani all’estero sanno bene cosa vuole dire assistere inerti allo smantellamento dei loro diritti; sì, perché anche la nuova legge della cittadinanza voluta dal governo che sostanzialmente cancella il diritto di trasmissione ‘ius sanguinis’ che fino ad oggi reggeva il nostro ordinamento e contribuiva a rendere solido il nostro legame con le collettività italiane nel mondo è stata approvata con il ricorso ingiustificato alla decretazione d’urgenza e quindi impedendo al Parlamento e alla società civile di confrontarsi e discutere su un tema tanto importante. 

Ma torniamo alla riforma della giustizia e al referendum con il quale tutti gli italiani, in Italia e all’estero, saranno chiamati ad esprimere il loro consenso o la loro contrarietà alla legge approvata dal Parlamento a maggioranza semplice e per questo motivo sottoposta agli elettori; un referendum, vale la pena ricordarlo, per il quale non sarà necessario il “quorum” del 50% di partecipazione per la sua validità, non trattandosi di una richiesta di abrogazione di una legge ma della necessità di confermare o meno una riforma costituzionale. 

Non sono un giurista e non ho la pretesa di entrare nei dettagli dell’attuale assetto della giustizia e del dibattito tra esperti e costituzionalisti sull’oggetto della riforma voluta dal governo. Ho però chiare tre cose e mi sembra giusto condividerle con chi avrà la pazienza di leggere queste poche righe che seguono: 

1) Questa legge non è sulla “separazione delle carriere” tra pubblico ministero e giudici: la  riforma Cartabia del 2021 ha già reso nei fatti una rarissima eccezione il passaggio da una carriera ad un’altra (opzione esercitata da soli 30 magistrati su 30mila); 

2) Questa legge non migliora l’efficienza della giustizia (per ammissione dello stesso governo) ma indebolisce l’autonomia dei magistrati e li sottomette ad un controllo maggiore del potere politico. Il vero attacco è al Consiglio Superiore della Magistratura, che verrà eletto per un terzo dal Parlamento e per due terzi da membri scelti per sorteggio (caso unico al mondo) che finiranno per essere soggetti all’influenza dei nominati dalla maggioranza di governo; 

3) La vittoria al referendum serve quindi soltanto a legittimare l’azione progressiva e decisa del governo Meloni contro l’equilibrio dei poteri e lo Stato di diritto, utilizzando in maniera pretestuosa il tema dell’efficienza della giustizia (che avrebbe bisogno di più risorse e di tempi certi per i processi e non di un maggiore controllo del potere giudiziario da parte dell’esecutivo). 

Un autorevole politico socialista della cosiddetta “Prima Repubblica”, Rino Formica, che in passato ha condotto importanti battaglie politiche per la “giustizia giusta” e la riforma della stessa, ha colto bene il dato politico che sta alla base di questo referendum e lo cito volentieri a conclusione di questo mio commento:  “Qui non è in gioco la carriera dei magistrati, né se saranno o no autonomi in uno stato libero e democratico. Nella decadenza democratica, unite o divise, le carriere dei magistrati saranno alle dipendenze di un potere autoritario. Dunque oggi votare contro qualsiasi riforma proposta dalle forze che hanno un’intenzione demolitrice della Carta è un dovere”.

Fabio Porta è deputato italiano del Partito Democratico, eletto in Sud America; è Vice Presidente del Comitato Permanete sugli Italiani nel Mondo della Camera dei Deputati

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