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Assessor de Cidadania Italiana da Serra Gaúcha é preso em São Paulo

A cidadania italiana voltou a ser destaque nas páginas policiais, com a prisão preventiva de um empresário, proprietário da empresa DHG, estabelecido em Caxias do Sul (RS), suspeito de aplicar golpes em mais de 50 ítalo-descendentes que buscavam o reconhecimento da cidadania pela via administrativa na Itália. 

O acusado, de 39 anos, é ligado ao ramo do futebol e atuou como agente de jovens jogadores para testes em clubes europeus. Ele foi preso nesta terça-feira (17), em Piracicaba (SP), após investigação policial iniciada há oito meses, e irá responder por estelionato, delito pelo qual já possui antecedente criminal, e também por crimes contra a relação de consumo. O prejuízo causado às vítimas, nos últimos três anos, é estimado em R$ 1,5 milhão.

Segundo consta no inquérito, o suspeito, ciente da possibilidade de ser preso, havia transferido residência para Piracicaba fazia três meses e tinha viagem prevista para a Itália, precisamente para Milão, na próxima quinta-feira (19). O inquérito aponta, também, que o investigado teria contraído dívidas após o ano de 2016 e perdido contatos que mantinha na Europa. Mesmo assim, seguiu oferecendo os serviços de assessoria, mas sem honrar com grande parte dos compromissos. A polícia, por considerar a existência de outras vítimas, disponibilizou o telefone 0800 510 2828 para o recebimento de denúncias.

Operação Lavoro

A ação foi realizada pela Polícia Civil gaúcha, por meio da Delegacia do Consumidor (DECON) ligada ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) e contou com o apoio da Delegacia de Investigações Gerais do Estado de São Paulo (DIG/SP).

Segundo o delegado Joel Wagner, coordenador da DECON, a investigação teve início em fevereiro de 2019, quando a delegacia recebeu denúncias de que o suspeito oferecia e cobrava por serviços de reconhecimento da cidadania italiana, descumprindo, reiteradamente, os contratos firmados com os clientes. 

O delegado explica como o golpe era aplicado: “O suspeito prometia que a cidadania seria reconhecida através da residência na Itália e não pelo Consulado Italiano no Brasil. Assim, os pretendentes ao direito da cidadania deveriam obter declarações e certidões de nascimento, de casamento e de óbito, de ascendentes italianos, e, além disso, deveriam permanecer na Itália por um período que variava entre 45 a 90 dias. As vítimas pagavam em média o valor de R$ 30.000,00, geralmente em Euros, para a prestação do serviço, que incluía o acompanhamento para a obtenção dos documentos, apostilamento, traduções, passagens aéreas, translado e hospedagem na Itália. Ocorre que, em muitos casos, as pessoas lesadas sequer viajavam para a Itália, pois as passagens aéreas nem ao menos eram obtidas pelo investigado. Aquelas pessoas que conseguiam ir até o mencionado país, não encontravam hospedagem prometida, aumentando ainda mais seus gastos, pois eram iludidas pelo suspeito a permanecer na Itália sempre prometendo a obtenção do direito da cidadania. Depois de muito insistir pelos seus direitos, as pessoas se davam conta de que haviam sido vítimas de um crime e retornavam ao Brasil.”

De acordo com o delegado, as vítimas identificadas no curso da investigação eram de fato descendentes de italianos e procuravam obter a cidadania mediante a residência na Itália. Inclusive, muitos manifestavam preocupação ao acusado quanto à legalidade da obtenção da cidadania, o qual sempre afirmava que tudo estava sendo realizado de acordo com as normas vigentes para a obtenção desse direito na Itália. “Estima-se que o número de vítimas deva ser de pelo menos 50 pessoas, as quais tiveram um gasto médio de R$30.000,00, do que se conclui que o suspeito obteve um lucro indevido de, aproximadamente, R$ 1.500.000,00, desde o ano de 2017.”

O delegado destaca, ainda, que o preso tem imóveis na Itália e estava com viagem marcada a Milão, nesta quinta-feira (19). Com ele foram apreendidos um automóvel, vários documentos, passaportes, computadores e celulares, o que, segundo o delegado, comprova que o acusado permanecia prestando serviços de consultoria, provavelmente do mesmo modo que prestava anteriormente, ou seja, cometendo novos estelionatos contra vítimas.

Processo mais rápido na Itália

Segundo informações divulgadas pelo jornal Zero Hora , uma das vítimas, moradora da capital gaúcha que pediu para não ter o nome divulgado, procurou a Delegacia do Consumidor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) ao perceber que tinha sido enganada pelo assessor identificado como proprietário da empresa DHG, de Caxias do Sul. Além dela, outras 14 pessoas ingressaram com processo judicial contra o acusado. 

Conforme a matéria, a vítima teria sido informada pelo acusado que o processo de reconhecimento seria concluído rapidamente se fosse realizado diretamente na Itália. O pagamento adiantado ao assessor teria sido de R$ 20.000,00 e o prejuízo total cerca de R$ 45.000,00. A vítima informou ter residido por 47 dias em uma pequena cidade italiana, arcando com as despesas de hospedagem, transporte e alimentação. Segundo ela, o responsável pela empresa investigada apresentava justificativas para a demora no processo, alegando problemas com funcionários, pedidos de mais prazo e até chegou a pedir que  algumas pessoas, clientes que aguardavam o procedimento, se deslocassem para outras regiões a fim de obter mais tempo. Ao término do período na Itália, nem a entrada no processo teria sido realizada.